Em 17 de abril de 1996, a Polícia Militar do Pará abriu fogo contra uma marcha de trabalhadores rurais sem-terra na curva do S, na rodovia PA-150, no município de Eldorado dos Carajás. Dezenove pessoas morreram, 69 ficaram feridas e dezenas foram presas e torturadas. Trinta anos depois, nenhum dos policiais condenados em segunda instância cumpre pena.
O que aconteceu em 1996
Cerca de 1.500 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) marchavam em direção à capital Belém para pressionar o governo estadual pela desapropriação da fazenda Macaxeira. Na altura da curva do S, a PM bloqueou a rodovia com dois pelotões posicionados em pinça, um de cada lado.
Segundo laudos periciais e testemunhos, os policiais usaram armas de fogo, baionetas e foices confiscadas dos próprios manifestantes contra o grupo. Gravações feitas por jornalistas mostraram policiais executando feridos à queima-roupa. A Anistia Internacional classificou o episódio como um dos piores massacres policiais da América Latina.
A lenta marcha da Justiça
Em 2002, dois oficiais foram condenados a mais de 200 anos de prisão cada, mas recorreram em liberdade. Em julgamentos subsequentes, 12 PMs foram condenados a penas de 12 a 72 anos, mas também recorreram e nunca foram presos. Em 2026, todos os condenados seguem em liberdade, beneficiados por recursos processuais e pela prescrição parcial de algumas penas.
A data é lembrada anualmente como o Dia Internacional da Luta Camponesa. Neste ano, o Acampamento Terra Livre, que reuniu mais de 7 mil indígenas em Brasília, também homenageou as vítimas de Carajás.
O que mudou — e o que não mudou
O massacre acelerou a criação do Ministério do Desenvolvimento Agrário e a ampliação do programa de reforma agrária nos governos FHC e Lula. Desde 1996, mais de 600 mil famílias foram assentadas no Brasil. Por outro lado, os conflitos no campo continuam: a Comissão Pastoral da Terra registrou 35 assassinatos em disputas agrárias só em 2025.




