Na madrugada desta terça-feira (7), os Estados Unidos lançaram uma nova onda de ataques contra a Ilha de Kharg, no Golfo Pérsico. O alvo não foi escolhido por acaso. Kharg é o coração da economia iraniana: por ali passa 90% de todo o petróleo que o Irã exporta. O ataque aconteceu horas antes do vencimento do ultimato que o presidente Donald Trump deu a Teerã para reabrir o Estreito de Ormuz.
Para entender por que esse nome domina as manchetes do mundo inteiro neste momento, é preciso olhar para o mapa, para os números e para o que vem a seguir.
Onde fica a Ilha de Kharg
A Ilha de Kharg é um pedaço de terra de apenas 20 quilômetros quadrados localizado a cerca de 25 km da costa sudoeste do Irã, dentro do Golfo Pérsico. Apesar do tamanho modesto, ela abriga a maior infraestrutura de exportação de petróleo do país: terminais de carregamento, oleodutos submarinos, tanques de armazenamento com capacidade para milhões de barris e um porto capaz de receber os maiores navios-tanque do mundo.
Na prática, Kharg funciona como o ponto final de uma rede de oleodutos que traz o petróleo extraído nos campos do interior do Irã até o mar, de onde ele segue em navios para a China, Índia, Coreia do Sul e outros compradores asiáticos. Sem Kharg, o Irã perde sua principal fonte de receita.
Por que Kharg é estratégica para o Irã
O petróleo responde por cerca de 60% da receita de exportação do Irã e financia boa parte do orçamento militar do país, incluindo a Guarda Revolucionária e as milícias aliadas no Líbano (Hezbollah), Iraque e Iêmen (houthis). Interromper o fluxo de petróleo por Kharg equivale a cortar a principal artéria financeira do regime iraniano.
Em 2025, antes do início do conflito, o Irã exportava aproximadamente 1,5 milhão de barris por dia, a maior parte para a China. Esse volume já havia caído com as sanções americanas reimpostas, mas Kharg continuava operando como o único terminal com capacidade logística para manter as exportações em escala relevante.
Analistas do Council on Foreign Relations chamam a ilha de “o alvo mais tentador e mais perigoso” para os Estados Unidos: atacar a infraestrutura de petróleo paralisaria a economia iraniana, mas poderia provocar uma escalada imprevisível nos preços globais de energia.
O que os EUA atacaram e o que foi poupado
Alvos militares atingidos
Segundo fontes oficiais americanas citadas pela NBC News e pela CNN, os ataques desta terça atingiram mais de 50 alvos militares na ilha, incluindo baterias antiaéreas, depósitos de mísseis e instalações da Guarda Revolucionária. A operação foi conduzida por aviões de combate e mísseis de cruzeiro lançados de navios no Golfo Pérsico.
Infraestrutura de petróleo preservada — por enquanto
O Pentágono afirmou que a infraestrutura civil de petróleo não foi alvo direto dos bombardeios. A mesma abordagem havia sido adotada no primeiro ataque à ilha, em 13 de março, quando mais de 90 instalações militares foram atingidas sem danos declarados à infraestrutura petrolífera.
Especialistas em defesa, no entanto, questionam até quando essa distinção será mantida. Um artigo publicado pelo site War on the Rocks argumenta que a estratégia de atacar apenas alvos militares em uma ilha que é essencialmente um complexo petrolífero tem limites práticos e que o risco de danos colaterais à infraestrutura de energia aumenta a cada operação.
Como o Irã retaliou contra a Arábia Saudita
Horas após os ataques americanos a Kharg, o Irã lançou mísseis balísticos e drones contra o complexo industrial de Al Jubail, na costa leste da Arábia Saudita. A região abriga operações da SABIC, uma das maiores petroquímicas do mundo, e responde por mais de 7% do PIB saudita.
O Ministério da Defesa saudita informou que seus sistemas antiaéreos interceptaram sete mísseis balísticos, mas fragmentos atingiram instalações de energia na região, provocando incêndios visíveis a quilômetros de distância. Trabalhadores da zona industrial foram evacuados de seus alojamentos.
A Guarda Revolucionária iraniana avisou que, se Trump cumprir suas ameaças de destruir a infraestrutura civil do Irã, Teerã irá “privar os Estados Unidos e seus aliados do petróleo e do gás da região por anos”. A ameaça implica ataques diretos às instalações petrolíferas da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes e do Kuwait.
Impacto nos preços do petróleo e na economia global
O barril de petróleo WTI saltou mais de 3% logo após as primeiras notícias dos ataques, atingindo quase US$ 116. O Brent, referência global, opera acima de US$ 110. Desde o início do conflito em fevereiro, o petróleo já subiu mais de 50%, e a Agência Internacional de Energia classificou a crise como o maior choque de oferta da história do mercado. Entenda em detalhes como a crise no Estreito de Ormuz afeta o mercado global de energia.
O impacto vai além do petróleo. O Golfo Pérsico é responsável por parcela significativa das exportações globais de gás natural liquefeito, fertilizantes, metanol e produtos petroquímicos. A escalada dos ataques entre Irã e Arábia Saudita coloca em risco não apenas o fornecimento de energia, mas as cadeias de produção de alimentos e de insumos industriais.
Na Ásia, Japão e Coreia do Sul já acionaram reservas estratégicas de petróleo. A China negocia rotas alternativas por oleodutos terrestres com a Rússia. Na Europa, a Comissão Europeia convocou reunião de emergência dos ministros de energia.
O que muda para o Brasil
O Brasil é autossuficiente em petróleo e exportador líquido, o que em tese o protege de choques de oferta. Mas os preços dos combustíveis no mercado interno acompanham, ainda que com defasagem, a cotação internacional. A Petrobras já enfrenta pressão para reajustar os preços nas refinarias, e o governo respondeu com redução de impostos sobre combustíveis.
O impacto indireto é mais amplo. A alta do petróleo eleva o custo de fretes, fertilizantes e produtos petroquímicos, pressionando a inflação. O Boletim Focus elevou a projeção de inflação para 2026 pela quarta semana consecutiva, para 4,36%, em parte por causa da crise energética global. Veja também: O que é o Estreito de Ormuz e por que seu fechamento afeta o preço dos combustíveis no Brasil.
Por outro lado, a alta dos preços beneficia a balança comercial brasileira: o país exporta petróleo e commodities que se valorizam em cenários de instabilidade geopolítica. A questão é se os ganhos na exportação compensam a pressão inflacionária interna, especialmente em ano eleitoral.
O que esperar nas próximas horas
O ultimato de Trump expira às 21h de Brasília. Se não houver acordo, o presidente americano ameaçou bombardear todas as usinas de energia e pontes do Irã, o que representaria a maior campanha de destruição de infraestrutura civil em décadas. A Guarda Revolucionária prometeu retaliação em escala equivalente contra aliados dos EUA na região.
Diplomatas de Turquia, Paquistão e China trabalham para arrancar concessões de ambos os lados antes do prazo. O Conselho de Segurança da ONU tem reunião de emergência prevista. A cúpula Trump-Xi, prevista para maio em Pequim, pode ser antecipada se a China decidir intervir como mediadora para proteger seus interesses energéticos na região.
O mundo acompanha: o desfecho das próximas horas determinará se o conflito permanece uma crise regional ou se transforma em um evento econômico global comparável aos choques do petróleo de 1973 e 1979.




