Entenda a nova diretriz do CNE
O uso de inteligência artificial nas escolas para corrigir redações e provas dissertativas está proibido em todas as etapas da educação brasileira. A decisão é do Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão vinculado ao Ministério da Educação, e foi tomada nesta terça-feira (1º de setembro de 2026), segundo o G1. A nova diretriz, publicada pelo CNE no site do MEC, entra em vigor assim que for publicada no Diário Oficial da União, após homologação do MEC.
A proibição não se limita à correção automática. O parecer aprovado pelo CNE estabelece um conjunto de regras que afetam desde a educação infantil até o ensino superior. O objetivo declarado é preservar a avaliação humana como componente central do processo educacional, mesmo em um cenário em que ferramentas de IA generativa estão cada vez mais acessíveis.
Segundo o texto da diretriz, a aplicação das proibições é imediata. Já os sistemas de ensino e as instituições educacionais terão até 12 meses, contados a partir da publicação da resolução, para se adequarem às demais regras. Ou seja: escolas, universidades e redes municipais e estaduais precisam ajustar seus processos internos, mas o que é proibido já não pode ser feito a partir de agora.
O que muda na prática com a inteligência artificial nas escolas
A principal mudança é direta: nenhum professor ou instituição poderá usar ferramentas de IA para atribuir notas ou corrigir trabalhos dissertativos. Isso vale para redações, provas abertas, trabalhos acadêmicos e qualquer formato de avaliação que dependa de análise de conteúdo, argumentação ou estilo. A correção continua sendo de responsabilidade humana em todos os níveis.
A diretriz também proíbe o acesso direto e sem supervisão a ferramentas de inteligência artificial por crianças da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental, até o 5º ano. Na prática, isso significa que alunos de escolas que já oferecem tablets ou computadores com chatbots integrados precisarão ter o uso monitorado por um educador. A ferramenta não pode ser liberada como recurso livre para crianças pequenas.
Para os anos finais do ensino fundamental e para o ensino médio, a diretriz não proíbe o uso de IA pelos alunos, mas estabelece que as instituições precisam definir regras claras sobre quando e como essas ferramentas podem ser utilizadas. A ideia é que a escola tenha um protocolo interno, aprovado pelo seu conselho ou coordenação, que oriente professores e estudantes.
No ensino superior, a situação é semelhante. Universidades e faculdades precisarão revisar seus regimentos acadêmicos para incorporar as novas diretrizes. Isso inclui definir se e como a IA pode ser usada como apoio em atividades de pesquisa, e quais os limites para o uso em trabalhos de conclusão de curso, dissertações e teses.
Regras por etapa de ensino
Cada etapa da educação tem regras diferentes dentro da mesma diretriz do CNE. A distinção mais importante é entre o que é proibido de forma imediata e o que depende de adaptação institucional. A tabela abaixo resume o que muda para cada nível.
| Etapa de ensino | Correção por IA | Acesso do aluno à IA | Prazo de adequação |
|---|---|---|---|
| Educação infantil | Proibido | Proibido sem supervisão | Imediato |
| Anos iniciais do fundamental (até o 5º ano) | Proibido | Proibido sem supervisão | Imediato |
| Anos finais do fundamental (6º ao 9º ano) | Proibido | Permitido com regras definidas pela escola | 12 meses |
| Ensino médio | Proibido | Permitido com regras definidas pela escola | 12 meses |
| Ensino superior | Proibido | Permitido com protocolo institucional | 12 meses |
A proibição de correção por IA vale para todas as etapas, sem exceção. Já o acesso do aluno à ferramenta varia conforme a idade e a capacidade de a instituição supervisionar o uso. A diretriz não detalha quais ferramentas específicas estão incluídas, mas o texto se refere a “todo software que usa IA generativa”, o que abrange chatbots, geradores de texto, assistentes de código e plataformas de escrita automatizada.
O que a diretriz não resolve
A resolução do CNE não define como as escolas vão fiscalizar o uso de IA pelos alunos em casa. Esse é um ponto que a diretriz deixa em aberto. Se um estudante do ensino médio usar um chatbot para redigir um trabalho em casa, a responsabilidade de detectar e orientar será da escola, mas o texto não prevê mecanismos específicos de verificação.
Outro ponto que a diretriz não detalha é a relação entre a nova regra e o uso de IA em avaliações padronizadas, como o Enem e vestibulares. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que organiza o Enem, não se pronunciou até o momento sobre eventuais mudanças no processo de correção das redações do exame. O Enem utiliza corretores humanos, mas a discussão sobre o uso de ferramentas tecnológicas como apoio à triagem de textos já vinha sendo feita nos bastidores.
A diretriz também não trata de forma específica o uso de detectores de plágio ou de texto gerado por IA. Algumas universidades já adotam softwares que identificam se um texto foi produzido por inteligência artificial, mas a resolução do CNE não entra nesse mérito. Cabe a cada instituição decidir se e como utilizar essas ferramentas de apoio.
O contexto da decisão
A decisão do CNE ocorre em um momento de expansão rápida do uso de IA generativa no Brasil. Ferramentas como ChatGPT, Google Gemini e outros assistentes de texto gratuitos se tornaram populares entre estudantes em 2025 e 2026, levando escolas e universidades a debater como lidar com a tecnologia. Em Nova York, nos Estados Unidos, o prefeito Zohran Mamdani anunciou no início de setembro de 2026 a suspensão temporária do uso de IA por alunos de escolas públicas da pré-escola até o 9º ano, medida semelhante à que o CNE adotou no Brasil, segundo a Reuters/G1.
No Brasil, a discussão ganhou força após episódios em que estudantes entregaram trabalhos redigidos integralmente por chatbots sem que os professores percebessem. Em instituições de ensino superior, casos de plágio tecnológico levaram departamentos a revisar critérios de avaliação. A diretriz do CNE é a primeira norma nacional que tenta regular o tema de forma ampla.
A expectativa é que as redes de ensino publiquem orientações complementares nos próximos meses. Secretarias estaduais e municipais de educação devem adaptar seus currículos e normas internas para incorporar as regras do CNE. A medida não impede que escolas usem IA como ferramenta pedagógica, desde que o uso seja supervisionado e não substitua a avaliação humana.
O que professores e gestores precisam fazer agora
Professores e diretores precisam revisar imediatamente os processos de avaliação que utilizam qualquer forma de correção automatizada. Se uma escola já usa plataformas que aplicam IA para corrigir provas dissertativas ou redações, esse recurso deve ser desativado até que a instituição se adeque às novas regras. A proibição de correção por IA tem aplicação imediata, sem período de transição.
Gestores também precisam avaliar se as ferramentas tecnológicas disponíveis nas escolas, como computadores e tablets, permitem o acesso irrestrito a chatbots e geradores de texto para alunos da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental. Se sim, é necessário implementar controles de acesso, como filtros de conteúdo ou supervisão presencial durante o uso.
Para o ensino médio e o superior, o prazo de 12 meses permite que as instituições construam protocolos internos. A recomendação é que esses protocolos envolvam professores, coordenação pedagógica e, no caso de universidades, os colegiados de curso. O documento deve definir quais atividades podem contar com apoio de IA, como o uso deve ser declarado pelo aluno e quais as consequências do uso indevido.
Perguntas frequentes
A proibição vale para todos os tipos de escola?
Sim. A diretriz do CNE se aplica a todas as instituições de ensino do Brasil, sejam públicas ou privadas, da educação infantil ao ensino superior. Não há distinção entre redes municipais, estaduais, federais e escolas particulares.
Escola pode usar IA para criar provas e materiais didáticos?
A diretriz proíbe o uso de IA para corrigir e atribuir notas, mas não proíbe que professores usem ferramentas de inteligência artificial para elaborar provas, criar exercícios ou preparar aulas. A distinção é entre produção de material (permitido) e avaliação do desempenho do aluno (proibido para IA).
O Enem vai mudar a forma de corrigir a redação?
Até o momento, o Inep, órgão responsável pelo Enem, não anunciou mudanças no processo de correção da redação do exame. O Enem já utiliza corretores humanos, e não há informação de que a prova utilize IA para atribuir notas. A diretriz do CNE pode, no entanto, levar o Inep a revisar seus procedimentos internos.
Aluno que usar IA para fazer trabalho vai ser punido?
A diretriz não prevê punições específicas para alunos. Cabe a cada instituição definir, em seu regimento interno, as consequências do uso inadequado de ferramentas de IA. O texto do CNE orienta que as escolas estabeleçam regras claras, mas a aplicação de sanções é uma decisão de cada escola ou universidade.
Quando a resolução entra em vigor?
As proibições previstas no parecer, como a correção de provas por IA e o acesso não supervisionado de crianças pequenas a ferramentas de IA, têm aplicação imediata. As demais regras, como a definição de protocolos institucionais, entram em vigor após a publicação da resolução no Diário Oficial da União, e as instituições terão 12 meses para se adequar.
Ferramentas de detecção de texto gerado por IA são permitidas?
A diretriz do CNE não proíbe nem regula o uso de softwares que detectam se um texto foi produzido por inteligência artificial. Essa decisão fica a critério de cada instituição. Algumas universidades já adotam essas ferramentas como apoio à avaliação, mas o texto do CNE não entra nesse mérito.




