Em 4 de setembro de 2026, a Assembleia Geral da ONU aprovou por 164 votos a favor, 1 contra e 6 abstenções a resolução “Corrija o mapa”, que encoraja governos, organizações internacionais e outras entidades a adotar a projeção cartográfica Equal Earth (em português, “Terra Igual”). Os Estados Unidos foram o único país a votar contra, segundo a ONU News.
A resolução não é juridicamente vinculante: nenhum país, escola ou empresa fica obrigado a trocar de mapa, e o texto ressalva o uso da projeção de Mercator na navegação. O que ela faz é tomar posição sobre um problema conhecido dos cartógrafos: um dos mapas-múndi mais usados do mundo aumenta as terras próximas dos polos e encolhe, em proporção, a África, a América Latina e o Sul da Ásia. Abaixo, o que foi aprovado, por que os EUA foram contra e como comparar os mapas.
O que a ONU aprovou
A iniciativa foi liderada pelo Togo e apresentada em nome do Grupo Africano, que reúne os 54 países africanos da ONU, com apoio da União Africana, de acordo com a NPR. O projeto de resolução foi distribuído em 4 de agosto de 2026 como documento A/80/L.104, com o título “‘Correct the map’: rebalancing global cartographic representation and promoting equitable representation of the world’s regions, particularly Africa”. A lista de patrocinadores reúne países africanos e as Bahamas.
O texto cita a projeção pelo nome. O projeto declara que a Equal Earth “oferece uma representação mais precisa do tamanho das massas continentais” e é “uma opção relevante” para melhorar a representação cartográfica do mundo. Na prática, a resolução:
- encoraja países e organismos internacionais a adotar e difundir a Equal Earth e outros métodos de áreas iguais “onde o tamanho dos continentes for crítico”;
- pede que os países incluam o ensino crítico de cartografia nos currículos escolares;
- incentiva padrões internacionais para mapas digitais e impressos e convida as grandes plataformas de tecnologia a dialogar com os governos sobre o tema;
- pede que governos e entidades expliquem ao público as características, os limites e os usos adequados de cada projeção;
- manda o secretário-geral informar sobre a aplicação da resolução até a 83ª sessão da Assembleia Geral, quando o tema volta à pauta.
O mesmo texto reconhece que nenhuma projeção representa com perfeição a superfície curva da Terra num plano e afirma que a recomendação não altera a prática de uso de cartas para a navegação. Segundo a ONU News, a União Africana já adotou a Equal Earth, e a resolução invoca o Pacto para o Futuro, aprovado pelos países-membros em 2024, ao falar em eliminar vestígios de desigualdades históricas.
O chanceler do Togo, Robert Dussey, disse antes da votação que “os mapas moldam a nossa compreensão do mundo” e orientam a educação e as percepções coletivas. À agência Reuters, em texto republicado pelo Gulf Times, ele afirmou que o Togo pretendia trocar os próprios livros de geografia até o fim de 2026 e reunir, em até seis meses, países da União Africana e apoiadores de outras regiões para definir como ampliar a adoção, numa discussão que incluiria empresas de mapas, GPS e localização.
Por que os EUA votaram contra
Os Estados Unidos explicaram o voto numa declaração divulgada depois da votação por Yaryna Ferencevych, vice-representante americana no Conselho Econômico e Social da ONU. Segundo a NPR, o texto acusou a organização de promover uma agenda ideológica e de se desviar de questões mais urgentes: “Resoluções como esta e a agenda ideológica que promovem são cracas no nosso trabalho aqui, e a razão pela qual esta instituição está perdendo credibilidade”. A Reuters registrou que, para Washington, a proposta é uma distração dos “problemas genuínos de paz, prosperidade ou boas relações internacionais”.
O voto americano não impediu a aprovação, que teve 164 votos a favor. Além do voto contrário, houve seis abstenções. A matéria da ONU News não traz a justificativa dos EUA; ela aparece nas reportagens da NPR e da Reuters.
O problema do mapa de Mercator
A projeção de Mercator foi apresentada pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator em 1569, num grande mapa-múndi feito “para uso na navegação”, segundo o álbum de projeções do Serviço Geológico dos EUA (USGS). Ela preserva os ângulos, e por isso uma rota de rumo constante aparece como linha reta: o navegador traça a linha e segue a mesma direção da bússola. O USGS a descreve como padrão das cartas náuticas.
O preço dessa vantagem é a área. Na Mercator, a escala aumenta à medida que se afasta do Equador e tende ao infinito nos polos, que nem chegam a aparecer. O USGS classifica como “frequente e inadequado” o uso dessa projeção como mapa-múndi em atlas e mapas de parede, porque ela “apresenta uma visão enganosa do mundo” pela distorção excessiva de área. O exemplo lembrado pela Reuters é o da Groenlândia: no mapa, ela parece ter o tamanho da África, que na realidade é cerca de 14 vezes maior.
A projeção também está na base de mapas digitais. A documentação do Google Maps Platform informa que a API usa a projeção de Mercator para converter latitude e longitude em pontos do mapa e que a imagem é cortada perto de 85 graus de latitude norte e sul para formar um quadrado. É por isso que a resolução se dirige também às plataformas de tecnologia.
O que é a projeção Equal Earth
A Equal Earth foi desenvolvida em 2018 pelos cartógrafos Tom Patterson, Bernhard Jenny e Bojan Šavrič. É uma projeção de áreas iguais, definida pelo USGS como aquela em que todas as regiões aparecem na mesma proporção das suas áreas reais: um país com o dobro da superfície de outro ocupa o dobro do espaço no papel. Segundo a NPR, ela mostra com mais fidelidade o tamanho relativo de países e continentes, em especial da África, embora as formas fiquem um pouco distorcidas. Essa troca é inevitável: o próprio USGS lembra que precisão de área, forma e distância não pode ser alcançada ao mesmo tempo num mapa plano.
A tabela abaixo usa os dados do Anuário Demográfico da ONU de 2023 para mostrar o que a Mercator esconde. A área da África é a de terras da tabela de grandes regiões (29,6 milhões de km², atrás só da Ásia, com 31 milhões); a dos países é a superfície total, que inclui águas interiores.
| Território | Superfície (km²) | Quantas vezes a África é maior |
|---|---|---|
| Rússia | 17.098.246 | cerca de 1,7 vez |
| Canadá | 9.984.670 | cerca de 3 vezes |
| Estados Unidos | 9.833.517 | cerca de 3 vezes |
| China | 9.600.000 | cerca de 3,1 vezes |
| Brasil | 8.510.417 | cerca de 3,5 vezes |
| Groenlândia | 2.166.086 | cerca de 14 vezes |
Num mapa de áreas iguais, essas proporções aparecem como são. Na Mercator, as terras mais afastadas do Equador crescem, e a resolução registra que a África, a América Latina e o Sul da Ásia acabam proporcionalmente menores do que de fato são.
O que muda para o Brasil e para quem estuda
Pela tabela de superfícies da ONU, o Brasil é o quinto maior país do mundo, com 8.510.417 km², atrás de Rússia, Canadá, Estados Unidos e China. Como o país fica na América Latina, uma das regiões que a resolução aponta como encolhidas pela Mercator, um mapa de áreas iguais mostra o território brasileiro em proporção correta diante dos países do hemisfério Norte.
Nada muda por obrigação. A resolução não fixa prazo nem exige que o Ministério da Educação, editoras ou redes de ensino troquem os mapas. O que ela recomenda aos países é ensinar cartografia de forma crítica, explicar as limitações de cada projeção e usar mapas de áreas iguais quando o tamanho dos continentes importa. Para estudantes, a resolução é um bom ponto de partida para revisar cartografia; o guia de revisão do Enem 2026 ajuda a organizar os estudos por área. Para professores, a resolução serve de gancho para comparar mapas em sala; a situação da carreira está no texto sobre o Dia do Professor 2026.
Outras projeções e por que nenhuma é perfeita
A Equal Earth não é a primeira alternativa à Mercator. O álbum do USGS registra outras projeções usadas em mapas do mundo, cada uma com uma escolha diferente sobre o que distorcer:
| Projeção | Origem | O que preserva |
|---|---|---|
| Mercator | Gerardus Mercator, 1569 | Ângulos (rotas de rumo constante em linha reta); distorce muito as áreas perto dos polos |
| Peters (Gall ortográfica) | James Gall, 1855; Arno Peters, 1967 | Áreas (cilíndrica de áreas iguais) |
| Robinson | Arthur H. Robinson, 1963 | Nem ângulos nem áreas: busca um mapa que “pareça certo” |
| Winkel Tripel | Oswald Winkel, 1921 | Nem ângulos nem áreas: distorção moderada no conjunto |
| Equal Earth | Patterson, Jenny e Šavrič, 2018 | Áreas, com formas um pouco distorcidas |
A projeção de Peters, segundo o USGS, é essencialmente idêntica à ortográfica de Gall, apresentada mais de um século antes. A de Robinson foi criada a pedido da editora Rand McNally, usa tabelas de coordenadas em vez de fórmulas e foi adotada pela própria Rand McNally e pela National Geographic Society em mapas do mundo. A Winkel Tripel resulta da média entre duas outras projeções e é indicada para mapas do mundo inteiro. Nas palavras do USGS, não há como representar a Terra numa superfície plana sem distorção; o que muda é qual distorção se aceita para cada finalidade.
Perguntas frequentes
A ONU proibiu o mapa de Mercator?
Não. A resolução não é vinculante e não obriga países ou instituições a abandonar a Mercator. O ministério das Relações Exteriores do Togo disse que o texto “de forma alguma” contesta o uso da Mercator na navegação marítima e aérea, para a qual ela continua adequada.
O Google Maps vai mudar de projeção?
Não há prazo nem obrigação. A resolução “insta” as plataformas globais de tecnologia a dialogar com os países sobre representações mais precisas, incluindo a Equal Earth, e convida as empresas a adotar práticas transparentes. A documentação do Google Maps Platform continua descrevendo a Mercator como base do mapa.
A Equal Earth é a mesma coisa que a projeção de Peters?
Não. As duas preservam áreas, mas são projeções diferentes. A de Peters, de 1967, é cilíndrica e praticamente igual à de Gall, de 1855. A Equal Earth foi criada em 2018 por Patterson, Jenny e Šavrič e é a que a resolução da ONU cita pelo nome.
Quem apresentou a proposta e como foi a votação?
O texto foi apresentado pelo Togo em nome do Grupo Africano, com apoio da União Africana, e o projeto A/80/L.104 lista como patrocinadores países africanos e as Bahamas. O placar foi de 164 votos a favor, 1 contra (Estados Unidos) e 6 abstenções.
Quando a ONU volta a tratar do assunto?
O projeto de resolução pede ao secretário-geral que informe sobre a aplicação das medidas até a 83ª sessão da Assembleia Geral e inclui na pauta provisória dessa sessão um item sobre a representação correta dos continentes para fins educacionais e socioeconômicos.
Fontes
- ONU News: ONU aprova resolução para corrigir representação do mundo nos mapas (4/9/2026)
- Assembleia Geral da ONU: projeto de resolução A/80/L.104, “Correct the map” (4/8/2026)
- NPR: The U.N. backs a new world map showing Africa in its true relative size (4/9/2026)
- Reuters, via Gulf Times: UN approves resolution in support of map that shows Africa’s true size
- USGS: An Album of Map Projections, Professional Paper 1453
- ONU, Anuário Demográfico 2023, tabela 1 (área por grande região)
- ONU, Anuário Demográfico 2023, tabela 3 (superfície por país)
- Google Maps Platform: Map and tile coordinates





