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Novo mapa-múndi: o que a ONU aprovou sobre o Equal Earth e o voto dos EUA

A Assembleia Geral da ONU aprovou em 4 de setembro de 2026, por 164 votos a 1, a resolução "Corrija o mapa", que encoraja o uso da projeção Equal Earth. Veja o que ela pede, o que não obriga e por que os EUA votaram contra.

Texto corrigido em 17/10/2026. Veja o que mudou

Sede da ONU em Nova York, vista do East River
Sede da ONU em Nova York, vista do East River. Foto: Jdforrester/Wikimedia Commons, CC BY 4.0

Em 4 de setembro de 2026, a Assembleia Geral da ONU aprovou por 164 votos a favor, 1 contra e 6 abstenções a resolução “Corrija o mapa”, que encoraja governos, organizações internacionais e outras entidades a adotar a projeção cartográfica Equal Earth (em português, “Terra Igual”). Os Estados Unidos foram o único país a votar contra, segundo a ONU News.

A resolução não é juridicamente vinculante: nenhum país, escola ou empresa fica obrigado a trocar de mapa, e o texto ressalva o uso da projeção de Mercator na navegação. O que ela faz é tomar posição sobre um problema conhecido dos cartógrafos: um dos mapas-múndi mais usados do mundo aumenta as terras próximas dos polos e encolhe, em proporção, a África, a América Latina e o Sul da Ásia. Abaixo, o que foi aprovado, por que os EUA foram contra e como comparar os mapas.

O que a ONU aprovou

A iniciativa foi liderada pelo Togo e apresentada em nome do Grupo Africano, que reúne os 54 países africanos da ONU, com apoio da União Africana, de acordo com a NPR. O projeto de resolução foi distribuído em 4 de agosto de 2026 como documento A/80/L.104, com o título “‘Correct the map’: rebalancing global cartographic representation and promoting equitable representation of the world’s regions, particularly Africa”. A lista de patrocinadores reúne países africanos e as Bahamas.

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O texto cita a projeção pelo nome. O projeto declara que a Equal Earth “oferece uma representação mais precisa do tamanho das massas continentais” e é “uma opção relevante” para melhorar a representação cartográfica do mundo. Na prática, a resolução:

  • encoraja países e organismos internacionais a adotar e difundir a Equal Earth e outros métodos de áreas iguais “onde o tamanho dos continentes for crítico”;
  • pede que os países incluam o ensino crítico de cartografia nos currículos escolares;
  • incentiva padrões internacionais para mapas digitais e impressos e convida as grandes plataformas de tecnologia a dialogar com os governos sobre o tema;
  • pede que governos e entidades expliquem ao público as características, os limites e os usos adequados de cada projeção;
  • manda o secretário-geral informar sobre a aplicação da resolução até a 83ª sessão da Assembleia Geral, quando o tema volta à pauta.

O mesmo texto reconhece que nenhuma projeção representa com perfeição a superfície curva da Terra num plano e afirma que a recomendação não altera a prática de uso de cartas para a navegação. Segundo a ONU News, a União Africana já adotou a Equal Earth, e a resolução invoca o Pacto para o Futuro, aprovado pelos países-membros em 2024, ao falar em eliminar vestígios de desigualdades históricas.

O chanceler do Togo, Robert Dussey, disse antes da votação que “os mapas moldam a nossa compreensão do mundo” e orientam a educação e as percepções coletivas. À agência Reuters, em texto republicado pelo Gulf Times, ele afirmou que o Togo pretendia trocar os próprios livros de geografia até o fim de 2026 e reunir, em até seis meses, países da União Africana e apoiadores de outras regiões para definir como ampliar a adoção, numa discussão que incluiria empresas de mapas, GPS e localização.

Por que os EUA votaram contra

Os Estados Unidos explicaram o voto numa declaração divulgada depois da votação por Yaryna Ferencevych, vice-representante americana no Conselho Econômico e Social da ONU. Segundo a NPR, o texto acusou a organização de promover uma agenda ideológica e de se desviar de questões mais urgentes: “Resoluções como esta e a agenda ideológica que promovem são cracas no nosso trabalho aqui, e a razão pela qual esta instituição está perdendo credibilidade”. A Reuters registrou que, para Washington, a proposta é uma distração dos “problemas genuínos de paz, prosperidade ou boas relações internacionais”.

O voto americano não impediu a aprovação, que teve 164 votos a favor. Além do voto contrário, houve seis abstenções. A matéria da ONU News não traz a justificativa dos EUA; ela aparece nas reportagens da NPR e da Reuters.

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O problema do mapa de Mercator

A projeção de Mercator foi apresentada pelo cartógrafo flamengo Gerardus Mercator em 1569, num grande mapa-múndi feito “para uso na navegação”, segundo o álbum de projeções do Serviço Geológico dos EUA (USGS). Ela preserva os ângulos, e por isso uma rota de rumo constante aparece como linha reta: o navegador traça a linha e segue a mesma direção da bússola. O USGS a descreve como padrão das cartas náuticas.

O preço dessa vantagem é a área. Na Mercator, a escala aumenta à medida que se afasta do Equador e tende ao infinito nos polos, que nem chegam a aparecer. O USGS classifica como “frequente e inadequado” o uso dessa projeção como mapa-múndi em atlas e mapas de parede, porque ela “apresenta uma visão enganosa do mundo” pela distorção excessiva de área. O exemplo lembrado pela Reuters é o da Groenlândia: no mapa, ela parece ter o tamanho da África, que na realidade é cerca de 14 vezes maior.

A projeção também está na base de mapas digitais. A documentação do Google Maps Platform informa que a API usa a projeção de Mercator para converter latitude e longitude em pontos do mapa e que a imagem é cortada perto de 85 graus de latitude norte e sul para formar um quadrado. É por isso que a resolução se dirige também às plataformas de tecnologia.

O que é a projeção Equal Earth

A Equal Earth foi desenvolvida em 2018 pelos cartógrafos Tom Patterson, Bernhard Jenny e Bojan Šavrič. É uma projeção de áreas iguais, definida pelo USGS como aquela em que todas as regiões aparecem na mesma proporção das suas áreas reais: um país com o dobro da superfície de outro ocupa o dobro do espaço no papel. Segundo a NPR, ela mostra com mais fidelidade o tamanho relativo de países e continentes, em especial da África, embora as formas fiquem um pouco distorcidas. Essa troca é inevitável: o próprio USGS lembra que precisão de área, forma e distância não pode ser alcançada ao mesmo tempo num mapa plano.

A tabela abaixo usa os dados do Anuário Demográfico da ONU de 2023 para mostrar o que a Mercator esconde. A área da África é a de terras da tabela de grandes regiões (29,6 milhões de km², atrás só da Ásia, com 31 milhões); a dos países é a superfície total, que inclui águas interiores.

TerritórioSuperfície (km²)Quantas vezes a África é maior
Rússia17.098.246cerca de 1,7 vez
Canadá9.984.670cerca de 3 vezes
Estados Unidos9.833.517cerca de 3 vezes
China9.600.000cerca de 3,1 vezes
Brasil8.510.417cerca de 3,5 vezes
Groenlândia2.166.086cerca de 14 vezes

Num mapa de áreas iguais, essas proporções aparecem como são. Na Mercator, as terras mais afastadas do Equador crescem, e a resolução registra que a África, a América Latina e o Sul da Ásia acabam proporcionalmente menores do que de fato são.

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O que muda para o Brasil e para quem estuda

Pela tabela de superfícies da ONU, o Brasil é o quinto maior país do mundo, com 8.510.417 km², atrás de Rússia, Canadá, Estados Unidos e China. Como o país fica na América Latina, uma das regiões que a resolução aponta como encolhidas pela Mercator, um mapa de áreas iguais mostra o território brasileiro em proporção correta diante dos países do hemisfério Norte.

Nada muda por obrigação. A resolução não fixa prazo nem exige que o Ministério da Educação, editoras ou redes de ensino troquem os mapas. O que ela recomenda aos países é ensinar cartografia de forma crítica, explicar as limitações de cada projeção e usar mapas de áreas iguais quando o tamanho dos continentes importa. Para estudantes, a resolução é um bom ponto de partida para revisar cartografia; o guia de revisão do Enem 2026 ajuda a organizar os estudos por área. Para professores, a resolução serve de gancho para comparar mapas em sala; a situação da carreira está no texto sobre o Dia do Professor 2026.

Outras projeções e por que nenhuma é perfeita

A Equal Earth não é a primeira alternativa à Mercator. O álbum do USGS registra outras projeções usadas em mapas do mundo, cada uma com uma escolha diferente sobre o que distorcer:

ProjeçãoOrigemO que preserva
MercatorGerardus Mercator, 1569Ângulos (rotas de rumo constante em linha reta); distorce muito as áreas perto dos polos
Peters (Gall ortográfica)James Gall, 1855; Arno Peters, 1967Áreas (cilíndrica de áreas iguais)
RobinsonArthur H. Robinson, 1963Nem ângulos nem áreas: busca um mapa que “pareça certo”
Winkel TripelOswald Winkel, 1921Nem ângulos nem áreas: distorção moderada no conjunto
Equal EarthPatterson, Jenny e Šavrič, 2018Áreas, com formas um pouco distorcidas

A projeção de Peters, segundo o USGS, é essencialmente idêntica à ortográfica de Gall, apresentada mais de um século antes. A de Robinson foi criada a pedido da editora Rand McNally, usa tabelas de coordenadas em vez de fórmulas e foi adotada pela própria Rand McNally e pela National Geographic Society em mapas do mundo. A Winkel Tripel resulta da média entre duas outras projeções e é indicada para mapas do mundo inteiro. Nas palavras do USGS, não há como representar a Terra numa superfície plana sem distorção; o que muda é qual distorção se aceita para cada finalidade.

Perguntas frequentes

A ONU proibiu o mapa de Mercator?

Não. A resolução não é vinculante e não obriga países ou instituições a abandonar a Mercator. O ministério das Relações Exteriores do Togo disse que o texto “de forma alguma” contesta o uso da Mercator na navegação marítima e aérea, para a qual ela continua adequada.

O Google Maps vai mudar de projeção?

Não há prazo nem obrigação. A resolução “insta” as plataformas globais de tecnologia a dialogar com os países sobre representações mais precisas, incluindo a Equal Earth, e convida as empresas a adotar práticas transparentes. A documentação do Google Maps Platform continua descrevendo a Mercator como base do mapa.

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A Equal Earth é a mesma coisa que a projeção de Peters?

Não. As duas preservam áreas, mas são projeções diferentes. A de Peters, de 1967, é cilíndrica e praticamente igual à de Gall, de 1855. A Equal Earth foi criada em 2018 por Patterson, Jenny e Šavrič e é a que a resolução da ONU cita pelo nome.

Quem apresentou a proposta e como foi a votação?

O texto foi apresentado pelo Togo em nome do Grupo Africano, com apoio da União Africana, e o projeto A/80/L.104 lista como patrocinadores países africanos e as Bahamas. O placar foi de 164 votos a favor, 1 contra (Estados Unidos) e 6 abstenções.

Quando a ONU volta a tratar do assunto?

O projeto de resolução pede ao secretário-geral que informe sobre a aplicação das medidas até a 83ª sessão da Assembleia Geral e inclui na pauta provisória dessa sessão um item sobre a representação correta dos continentes para fins educacionais e socioeconômicos.

Fontes

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