Golpes digitais viraram o crime mais registrado do país, e as pessoas com mais de 60 anos estão entre as que mais perdem quando a fraude se concretiza. O 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho de 2026, contou 2.261.055 registros de estelionato em 2025: média de 258 golpes por hora, alta de 2,7% sobre 2024 e de quase 430% desde 2018. Este guia mostra como os golpes contra idosos funcionam hoje, como deixar o celular dos seus pais e avós mais seguro, quais regras combinar em família e o que fazer, passo a passo, se o dinheiro já saiu da conta.
O que os números mostram sobre idosos e golpes online
A pesquisa mais detalhada sobre o tema é da Fundação Seade, que ouviu moradores do estado de São Paulo entre julho e setembro de 2025 (série Seade SP TIC, publicada em março de 2026). Os resultados ajudam a desfazer um mito: o idoso não recebe mais tentativas de golpe do que os jovens, mas sofre mais quando a fraude dá certo.
- 82% das pessoas com 60 anos ou mais já receberam tentativas de golpe por mensagem, e-mail ou ligação. Entre 30 e 59 anos, o índice passa de 90%.
- 12% dos idosos tiveram conta bancária aberta ou empréstimo contratado em seu nome sem autorização, a maior proporção entre todas as faixas etárias.
- 68% acreditam que é praticamente impossível se proteger de golpes on-line, 17 pontos percentuais acima do grupo de 18 a 29 anos.
Esse último dado é o mais preocupante, porque a sensação de impotência leva ao abandono das precauções. A boa notícia é que a maioria dos golpes depende de a vítima fazer algo (passar um código, clicar num link, transferir por Pix), e pequenas mudanças de hábito cortam boa parte do risco.
Os golpes mais comuns contra pais e avós
Os criminosos mudam o roteiro com frequência, mas a estrutura se repete: criar urgência, se passar por alguém de confiança e levar a vítima a agir antes de pensar. A tabela resume os golpes que mais aparecem e o sinal que denuncia cada um.
| Golpe | Como funciona | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| Falso parente | Número novo com a foto de filho ou neto diz que “trocou de celular” e logo pede um Pix urgente para pagar uma conta ou resolver um imprevisto. | Número desconhecido, pressa, conta de destino em nome de terceiro. |
| WhatsApp clonado | O golpista pede o código de seis dígitos enviado por SMS e assume a conta da vítima para pedir dinheiro aos contatos. | Qualquer pedido para repassar código recebido por SMS. |
| Falsa central do banco | Ligação de suposto funcionário avisa sobre compra suspeita e pede senha, código ou transferência para “conta segura”. | Banco pedindo senha ou transferência. Bancos não fazem isso. |
| Falso benefício do INSS | Mensagem promete revisão, atrasado ou “dinheiro esquecido” mediante pagamento de uma taxa via Pix ou clique em link. | Cobrança de taxa para liberar benefício. |
| Empréstimo não autorizado | Dados pessoais vazados são usados para contratar consignado ou abrir conta em nome do idoso. | Depósito inesperado na conta ou parcela desconhecida no extrato. |
| Voz ou vídeo falso com IA | Áudio que imita a voz de um parente pede ajuda financeira. | Pedido por áudio sem possibilidade de conversa ao vivo. |
| Falso suporte técnico | Alerta na tela diz que o aparelho está infectado e pede para instalar um app de acesso remoto. | Pedido para instalar aplicativo indicado por desconhecido. |
O golpe com voz clonada por inteligência artificial merece atenção especial, porque derruba a regra antiga de “se eu ouvir a voz, é ele”. Explicamos como funciona em golpes com clonagem de voz por IA. Já os descontos indevidos em aposentadorias, outro problema que atingiu milhões de beneficiários, estão detalhados no guia sobre desconto de associação no INSS e o que fazer.
Como configurar o celular e as contas em 30 minutos
Reserve uma visita para fazer estas configurações junto com seu pai, mãe ou avô, explicando o porquê de cada uma. Ajustes feitos sem explicação costumam ser desfeitos na primeira dificuldade.
- Verificação em duas etapas no WhatsApp: em Configurações, Conta, Confirmação em duas etapas, crie um PIN de seis dígitos e cadastre um e-mail de recuperação. Isso impede a clonagem mesmo que o código do SMS seja repassado. O passo a passo completo está em como proteger o WhatsApp de clonagem.
- Limites do Pix: pela regra do Banco Central, entre 20h e 6h o limite padrão para pessoa física é de R$ 1.000. No app do banco, dá para reduzir os limites de dia e de noite para valores compatíveis com a rotina do idoso e antecipar o início do período noturno. Aumentos de limite só valem de 24 a 48 horas depois do pedido, o que dá tempo de reagir se alguém tentar subir o teto.
- Bloqueio de tela com PIN ou biometria, e senha diferente para o aplicativo do banco.
- Apps só das lojas oficiais (Google Play ou App Store). No Android, deixe desativada a opção de instalar aplicativos de fontes desconhecidas.
- Notificações discretas: oculte o conteúdo das mensagens na tela de bloqueio, para que códigos de SMS não apareçam a quem pegar o aparelho.
- Consignado bloqueado: desde maio de 2025 os benefícios do INSS ficam bloqueados para empréstimo consignado, e o desbloqueio só é feito pelo próprio titular no Meu INSS, com biometria facial. Se seu pai ou avô não pretende pegar empréstimo, mantenha bloqueado e desconfie de qualquer pessoa que ofereça “ajuda” para desbloquear.
- Conta gov.br protegida: ative a verificação em duas etapas, já que ela dá acesso ao Meu INSS, à CNH e a outros serviços. Vale também conhecer a CNH Digital, que evita carregar documento físico que pode ser furtado e usado em fraudes.
- Contatos salvos com nome completo, incluindo o telefone oficial do banco (o que está no verso do cartão), para que a confirmação de qualquer pedido seja feita por um número conhecido.
Uma vez por ano, consulte com o idoso o Registrato, sistema gratuito do Banco Central acessado com a conta gov.br. Ele lista as contas, chaves Pix e empréstimos registrados no CPF da pessoa e é a forma mais rápida de descobrir uma conta aberta ou um crédito contratado por golpistas.
Regras simples para combinar em família
Configuração técnica ajuda, mas o que mais protege é um combinado claro, fácil de lembrar e repetido com frequência. Sugestões que funcionam:
- Pedido de dinheiro se confirma por ligação para o número antigo, já salvo, do parente. Nunca pelo número que mandou a mensagem.
- Palavra-senha da família: uma palavra que só vocês conhecem e que qualquer parente precisa dizer ao pedir ajuda financeira. Funciona inclusive contra áudios falsos feitos com IA.
- Código e senha não se passam para ninguém, nem para quem diz ser do banco, do INSS, da operadora ou da polícia.
- Urgência é sinal de golpe. Quem pressiona para agir “agora” quer impedir que a vítima pense ou consulte alguém.
- Ligação suspeita se desliga. Depois, ligue você mesmo para o banco pelo número do cartão.
- Link recebido por SMS ou WhatsApp não se clica, principalmente sobre encomenda, multa, benefício ou prêmio.
- Na dúvida, pergunte antes. Deixe claro que ninguém vai brigar ou rir por causa de uma consulta: a vergonha é o maior aliado do golpista.
Caiu no golpe? O passo a passo para tentar recuperar o dinheiro
A velocidade faz diferença: quanto antes o banco for avisado, maior a chance de o dinheiro ainda estar na conta do golpista. Siga esta ordem.
- Conteste o Pix no aplicativo do banco. Desde 1º de outubro de 2025, os apps são obrigados a oferecer o autoatendimento do MED (Mecanismo Especial de Devolução), geralmente com o nome “Contestar transação” no comprovante ou no extrato do Pix. O pedido vale para golpe, fraude e coerção, não para transferência feita por engano ou arrependimento.
- Ligue também para a central do banco e peça o bloqueio de cartões, senhas e acessos, se houver suspeita de que o golpista teve acesso à conta.
- Registre boletim de ocorrência, que pode ser feito pela delegacia eletrônica da Polícia Civil do seu estado. Pelas regras publicadas pelo Banco Central em setembro de 2026, o BO e capturas de tela poderão ser anexados ao pedido de contestação no próprio app (os bancos têm até 1º de março de 2027 para se adaptar).
- Guarde as provas: comprovante do Pix, prints da conversa com o número do golpista, áudios e horários das ligações.
- Recupere as contas invadidas trocando senhas a partir de outro aparelho e avisando os contatos, caso o WhatsApp tenha sido clonado.
- Consulte o Registrato nos dias seguintes para verificar se surgiram contas ou empréstimos novos no CPF.
Pelo MED, a vítima tem até 80 dias, contados da data da transferência, para pedir a devolução. Os bancos envolvidos analisam o caso em poucos dias e, se o pedido for considerado procedente, o valor é devolvido conforme houver saldo na conta que recebeu o dinheiro. A versão aprimorada do mecanismo, conhecida como MED 2.0, passou a rastrear o dinheiro além da primeira conta, já que os golpistas costumam espalhar o valor por contas de “laranjas” em minutos. Desde 1º de setembro de 2026, quem recebeu um estorno indevido também ganhou 80 dias (antes eram 30) para contestar a devolução. Os detalhes estão em Pix MED: novo prazo de 80 dias.
Uma ressalva importante: o MED não garante o reembolso. Se o golpista já sacou ou movimentou todo o valor, pode não haver o que devolver. Quando o golpe envolve falha do banco (transação muito fora do perfil do cliente sem nenhum bloqueio, conta de golpista aberta sem checagem), a vítima pode reclamar no Banco Central e no Procon e, em último caso, buscar a Justiça. O resultado depende do caso concreto.
O que diz a lei sobre golpes contra idosos
O Código Penal trata o golpe digital como fraude eletrônica, com pena de 4 a 8 anos de reclusão e multa, e prevê aumento de um terço até o dobro quando a vítima é idosa ou vulnerável. O Estatuto da Pessoa Idosa também pune quem se apropria de bens ou rendimentos de pessoa idosa, inclusive quando o abuso parte de alguém próximo, como um parente ou cuidador que usa o cartão ou a senha do idoso sem autorização.
Casos de violência patrimonial contra idosos podem ser denunciados pelo Disque 100, canal gratuito do governo federal que funciona 24 horas. A denúncia pode ser anônima.
Perguntas frequentes
Qual é o golpe mais comum contra idosos no WhatsApp?
O golpe do falso parente: alguém usa um número novo com a foto de um filho ou neto, diz que trocou de celular e pede um Pix urgente. A proteção é ligar para o número antigo do parente antes de qualquer transferência e combinar uma palavra-senha da família.
Quanto tempo a vítima tem para pedir a devolução de um Pix pelo MED?
Até 80 dias contados da data da transferência. O pedido é feito no próprio aplicativo do banco, na opção de contestar a transação, ou pela central de atendimento. Quanto mais cedo, maior a chance de haver saldo na conta do golpista.
O banco é obrigado a devolver o dinheiro perdido em golpe?
Não automaticamente. O MED devolve o que ainda estiver disponível na conta recebedora. Se houver falha de segurança do banco, a vítima pode reclamar no Banco Central, no Procon e na Justiça, mas o resultado depende da análise de cada caso.
Como saber se fizeram empréstimo ou abriram conta no nome do meu pai?
Consulte o Registrato, do Banco Central, com a conta gov.br dele. O sistema lista contas, chaves Pix e operações de crédito registradas no CPF. No caso de aposentados, o extrato de empréstimos do Meu INSS também mostra os consignados ativos.
Dá para limitar o Pix do celular de um idoso?
Sim. No aplicativo do banco é possível reduzir os limites diurno e noturno e antecipar o início do horário noturno. Pela regra do Banco Central, o limite padrão entre 20h e 6h é de R$ 1.000, e pedidos de aumento levam de 24 a 48 horas para valer.
Onde denunciar golpe contra idoso?
Registre boletim de ocorrência na Polícia Civil, que em muitos estados aceita registro on-line, e avise o banco imediatamente. Se o abuso financeiro partir de familiar ou cuidador, a denúncia também pode ser feita pelo Disque 100.
Fontes: Fórum Brasileiro de Segurança Pública (20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública), Fundação Seade (Seade SP TIC), Banco Central do Brasil (regulamento do Pix, MED e Registrato), INSS (Instrução Normativa PRES/INSS nº 194/2025), Código Penal (Lei 14.155/2021) e Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003).




