A Superintendência-Geral do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou, sem restrições, a compra da Avibras pela Globe Investimentos, veículo de investimentos pessoais de Joesley e Wesley Batista. O despacho foi assinado na segunda-feira (14) pelo superintendente-geral interino Felipe Roquete e repercutiu nesta terça-feira (15). Com a decisão, os controladores da JBS passam a comandar a principal fabricante brasileira de foguetes e mísseis, criadora do sistema Astros usado pelo Exército.
No texto, o Cade avaliou que a operação “configura, eminentemente, uma substituição de agente econômico” e que “não acarreta prejuízos ao ambiente concorrencial”, porque a Globe não atuava no setor de defesa. A aprovação foi em rito sumário e ainda pode ser questionada por conselheiros ou terceiros dentro do prazo legal de 15 dias após a publicação, mas o mercado não espera contestação.
O que foi comprado e por quanto
O objeto da operação é 100% das ações da Nova AVB S.A., controladora integral da Avibras Aeroco Indústria Aeroespacial, empresa constituída em outubro de 2025 para receber os ativos da antiga Avibras, que continua em recuperação judicial. O vendedor é o fundo Brasil Crédito, principal credor da companhia, que assumiu o controle depois de apresentar um plano alternativo de recuperação aprovado pelos credores em maio de 2025.
O valor não foi divulgado e segue sob sigilo. O acordo foi anunciado em 21 de agosto, e a notificação ao Cade veio no fim do mês. Ao órgão, a Globe afirmou ver na compra uma “oportunidade de ingressar nos setores de defesa nacional e aeroespacial” e destacou que a operação “preserva o controle nacional de uma companhia estratégica para a defesa do País”. A empresa também declarou que nenhuma companhia do grupo J&F tem participação relevante em negócios de defesa e que, além do Cade, a transação não depende de outro órgão regulador.
Como a Avibras chegou até aqui
Fundada em 1961 em São José dos Campos por engenheiros recém-formados no ITA, a Avibras foi por décadas o símbolo da indústria de defesa nacional. Seu produto mais conhecido, o lançador múltiplo de foguetes Astros II, foi lançado em 1983 e vendido para Iraque, Arábia Saudita, Bahrein, Catar, Angola, Malásia e Indonésia. Só entre 1982 e 1987, as vendas do sistema somaram cerca de US$ 1 bilhão, e a empresa chegou a empregar 6 mil pessoas.
O melhor ano recente foi 2017, com faturamento de R$ 1,7 bilhão. A partir daí, a queda foi rápida:
| Data | Fato |
|---|---|
| 2019 a 2021 | Receita cai de R$ 920 milhões para R$ 223 milhões; prejuízo de R$ 134 milhões em 2021 |
| Março de 2022 | Pedido de recuperação judicial, com dívidas estimadas em R$ 600 milhões |
| Setembro de 2022 | Início da greve dos trabalhadores por salários atrasados |
| 2023 a 2025 | Negociações frustradas com grupos da Arábia Saudita, do Catar, da Austrália e da China |
| Maio de 2025 | Credores aprovam plano alternativo e destituem o controlador João Brasil Carvalho Leite |
| Março de 2026 | Acordo trabalhista de cerca de R$ 230 milhões encerra greve de 1.280 dias |
| Maio de 2026 | Retomada da produção com 271 trabalhadores; credenciamento como Empresa Estratégica de Defesa |
| Julho de 2026 | Lula visita a fábrica de Jacareí com Alckmin, Múcio e os três comandantes militares |
| Agosto de 2026 | Globe Investimentos anuncia a compra |
| Setembro de 2026 | Cade aprova sem restrições |
A lista de pretendentes ao longo da crise dá a medida do interesse estratégico: a estatal chinesa Norinco chegou a entregar uma carta ao Ministério da Defesa propondo comprar 49% da empresa em 2024, a australiana DefendTex ofereceu US$ 200 milhões por uma fatia majoritária, e um consórcio liderado pela brasileira Akaer com fundo de Abu Dhabi apresentou proposta em 2025. Nenhuma avançou, em parte pela exigência legal de manter o controle nacional em uma Empresa Estratégica de Defesa.
O papel do governo
O governo federal acompanhou a retomada de perto. Na visita de julho, o presidente Lula não escondeu a irritação com a demora: “Cuidar da Defesa desse país não é coisa pequena, não é coisa secundária”. O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou que a retomada já havia permitido contratar cerca de 480 trabalhadores e que o governo pretende ampliar encomendas, com possível reabertura da unidade de Lorena.
Do lado militar, o Exército já tem contrato assinado de R$ 300 milhões com a empresa para foguetes Astros, testes finais do míssil de cruzeiro MTC-300 e desenvolvimento de um míssil balístico tático. Segundo o Estadão, está em análise no Comando Logístico uma proposta de cerca de R$ 800 milhões para 36 obuseiros Atmos, da israelense Elbit, que seriam montados em Jacareí pela Avibras.
O ministro da Defesa, José Múcio, resumiu a expectativa em março: “O Brasil será um grande ator no mundo nessa questão dos mísseis especiais”.
Por que os Batista entram em defesa
É a primeira incursão dos irmãos no setor. A Globe Investimentos é a mesma sociedade pela qual eles investiram na Usiminas e, segundo a J&F, não integra os negócios da holding, que reúne JBS, Âmbar Energia, Eldorado, Flora, PicPay e Banco Original, com receita de R$ 490 bilhões em 2025. Joesley Batista já havia participado, em abril, de uma captação privada de R$ 300 milhões coordenada pela Brasil Crédito que viabilizou a retomada da produção.
Antes de aprovar, o Cade perguntou se a Avibras tinha relação comercial com fornecedores de energia, minério, gás ou celulose ligados ao grupo, ou com a Eletronuclear. A empresa respondeu que não compra esses insumos e que seu consumo de energia é “fração mínima do mercado nacional”, abaixo de 0,5%.
Em comunicado, a J&F afirmou que a operação dá “sustentação à recente retomada das operações da Avibras” e visa “preservar sua capacidade tecnológica e industrial”. Nenhum plano industrial detalhado foi divulgado até agora, e nem Joesley nem Wesley falaram publicamente sobre a compra.
Críticas e o que fica em aberto
A aprovação não encerra o debate. O colunista João Alfredo Nyegray, do ND Mais, resumiu a crítica mais comum: “O problema não é os Batista comprarem a Avibras. O problema é a cadeia de decisões, ou ausência de decisões, que colocou a empresa nessa situação de vulnerabilidade”. Weller Gonçalves, do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, disse que “em quatro anos de luta o governo federal apresentou promessas, mas não ações concretas de apoio”.
Na Câmara, a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional aprovou em agosto um requerimento de informações ao Ministério da Defesa sobre a venda, de autoria do deputado Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP), para quem “o destino de uma das maiores Empresas Estratégicas de Defesa do País se reveste de extrema relevância para o Estado brasileiro”.
Os próximos passos são o fechamento da operação após o trânsito da decisão do Cade, a continuidade das 48 parcelas do acordo trabalhista, que o sindicato diz que vai fiscalizar independentemente da mudança de controle, e a meta da empresa de retomar exportações em meados de 2027. A recuperação judicial da antiga Avibras S.A., que ficou com o passivo, segue em curso.
O movimento se soma a outros sinais de aquecimento industrial no país, como o recorde da produção industrial puxado pelo petróleo em 2026, num momento em que a guerra na Europa segue elevando a demanda global por armamentos, como mostramos na cobertura sobre a mobilização militar na Rússia.
Perguntas frequentes
A Avibras vai virar empresa da JBS?
Não. A compradora é a Globe Investimentos, veículo pessoal de Joesley e Wesley Batista, que segundo o grupo não faz parte da J&F nem da JBS.
Quanto custou a compra?
O valor não foi divulgado. As partes mantêm a cifra em sigilo.
Empresa estrangeira poderia ter comprado?
Dificilmente. Como Empresa Estratégica de Defesa, a Avibras precisa manter controle nacional, e o Ministério da Defesa pode barrar o descredenciamento por até cinco anos. Foi um dos motivos pelos quais propostas sauditas, chinesas e australianas não avançaram.
O que a Avibras produz hoje?
O sistema Astros II MK6, com alcance de 9 a 300 km, o míssil de cruzeiro MTC-300 em fase final de certificação, o míssil balístico tático AV-SS 100, foguetes Skyfire de 70 mm e projetos com a europeia MBDA. Também tem contrato de transferência de tecnologia do foguete suborbital VSB-30 com a Aeronáutica.
Os trabalhadores voltaram?
Sim. A produção foi retomada em maio de 2026 com 271 pessoas, com previsão de 511 contratações. O acordo trabalhista de cerca de R$ 230 milhões, para cerca de 1.400 trabalhadores, é pago em até 48 parcelas.




