O Sistema Único de Saúde começa a distribuir em outubro, de forma gradual, três medicamentos de alta tecnologia para o tratamento do câncer de pulmão: brigatinibe, gefitinibe e durvalumabe. A previsão do Ministério da Saúde é atender cerca de 1,9 mil pacientes, com o tratamento pago integralmente pelo governo federal. Na rede privada, essas terapias custam mais de R$ 600 mil por ano.
Os três remédios não são exatamente novos no papel: todos já tinham sido aprovados para o SUS em anos anteriores, o gefitinibe desde 2013. O problema é que, na prática, muitos hospitais não conseguiam comprá-los, porque o valor repassado pelo SUS não cobria o custo. A mudança agora está no financiamento: a nova política de Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco) faz a União pagar a conta inteira e, no caso do brigatinibe, comprar o remédio diretamente.
Importante: os medicamentos não servem para todos os pacientes com câncer de pulmão. A indicação depende do tipo de tumor, de alterações genéticas específicas e do estágio da doença, avaliados pela equipe médica. Veja quem pode receber, como funciona e o que o SUS oferece para prevenção e diagnóstico.
Os três medicamentos e para quem servem
| Medicamento | Tipo | Indicação no SUS |
|---|---|---|
| Brigatinibe | Terapia-alvo em comprimido (inibidor de ALK) | Câncer de pulmão de células não pequenas com alteração no gene ALK, localmente avançado ou metastático, como primeiro tratamento |
| Gefitinibe | Terapia-alvo em comprimido (inibidor de EGFR) | Câncer de pulmão de células não pequenas avançado ou metastático com mutação no gene EGFR |
| Durvalumabe | Imunoterapia, aplicada na veia | Câncer de pulmão de células não pequenas em estágio III que não pode ser operado e que não avançou após quimioterapia combinada com radioterapia |
O câncer de pulmão de células não pequenas é o tipo mais comum da doença. Os dois primeiros remédios são chamados de terapias-alvo porque agem sobre uma alteração específica nas células do tumor. Por isso, só funcionam em quem tem essa alteração, identificada por exame molecular do tumor. Segundo o oncologista Saulo Brito Silva, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, ouvido pelo Jornal da USP, brigatinibe e gefitinibe são indicados para doença metastática e “atuam em alterações específicas de proteínas das células do tumor”.
O durvalumabe é uma imunoterapia, que estimula o sistema de defesa do próprio corpo a combater o câncer. Ele é usado em uma fase diferente: tumores que ainda não se espalharam para outros órgãos, mas que não podem ser retirados por cirurgia. Segundo o Ministério da Saúde, o remédio “demonstra ganhos na sobrevida global” nesse grupo.
Por que a distribuição só começa agora
| Medicamento | Aprovação para o SUS | Como será comprado |
|---|---|---|
| Gefitinibe | Recomendado pela Conitec em 2013 | Compra pelos hospitais e gestores locais, com ressarcimento federal |
| Durvalumabe | Portaria SECTICS/MS nº 21, de abril de 2024 | Preço único negociado nacionalmente pelo ministério; compra pelos gestores |
| Brigatinibe | Portaria SECTICS/MS nº 28, de maio de 2025 | Compra centralizada pelo Ministério da Saúde, que distribui aos serviços |
Pela regra do SUS, depois que uma tecnologia é incorporada, a oferta deveria começar em até 180 dias. Na prática, os três remédios ficaram muito tempo sem chegar aos pacientes, e algumas reportagens apontam tratamentos que aguardavam a disponibilização havia mais de 12 anos. O motivo era financeiro: o hospital recebia um valor fixo por procedimento que muitas vezes era menor que o preço do medicamento.
Uma pesquisa com 156 oncologistas publicada em 2026 no JCO Global Oncology mostrou o tamanho da diferença: no SUS, a quimioterapia era usada em 94,4% dos primeiros tratamentos de câncer de pulmão avançado, e só 43,9% dos médicos relataram acesso ao teste de alteração ALK na rede pública. O principal entrave citado, por 72,4%, foi a falta de cobertura financeira. Outro estudo, com 101 pacientes com alteração ALK, encontrou sobrevida mediana de cerca de 5,8 anos na rede privada contra 1,8 ano no SUS.
Na mesma portaria que aprovou o brigatinibe, em 2025, o governo decidiu não incorporar outros dois remédios da mesma classe, o alectinibe e o lorlatinibe, para essa indicação.
A nova política: AF-Onco
A distribuição faz parte da Assistência Farmacêutica em Oncologia (AF-Onco), criada em 2025 com base na Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer (Lei 14.758/2023). Segundo o ministério, a política prevê 23 medicamentos oncológicos de alto custo, amplia em 35% a oferta na rede pública, deve atender mais de 100 mil pessoas e tem orçamento anual de R$ 2,1 bilhões, pagos pela União.
“Estamos em diálogo contínuo com a indústria farmacêutica” para disponibilizar os medicamentos o quanto antes, afirmou Fernanda De Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde do ministério. A entrega será gradual e não simultânea em todo o país, porque depende das negociações com fornecedores e das características de cada tecnologia. Até esta quarta-feira (7), o ministério não havia divulgado a divisão dos pacientes por estado nem confirmado as primeiras entregas aos hospitais.
Segundo o ministério, as terapias em comprimido também permitem que parte do tratamento seja feita em casa e têm menos efeitos adversos que a quimioterapia convencional.
Como o paciente consegue o tratamento
- O acesso é pela equipe de oncologia do serviço habilitado no SUS onde o paciente já faz tratamento. Os remédios não são retirados em farmácia comum.
- A indicação é médica e depende do tipo de tumor, do estágio e, no caso de brigatinibe e gefitinibe, do resultado do exame molecular que identifica as alterações ALK ou EGFR.
- Converse com o oncologista sobre se o seu caso se encaixa nos critérios e se o exame molecular já foi feito. O ministério não informou ainda como o teste será oferecido dentro da nova política.
- O paciente não paga nada: o tratamento é gratuito e financiado pelo governo federal.
Se houver demora injustificada, o paciente pode procurar a ouvidoria do SUS pelo telefone 136, a Defensoria Pública ou o Ministério Público. Conheça outros direitos pouco divulgados em 10 direitos no SUS que você provavelmente não sabe.
Quanto custam fora do SUS
Segundo o Ministério da Saúde, na rede privada:
- brigatinibe e gefitinibe, somados, custam mais de R$ 604,2 mil por ano;
- o durvalumabe custa mais de R$ 643 mil por ano.
O governo não divulgou quanto vai pagar por esses medicamentos com a negociação nacional de preços. Para quem tem plano de saúde, a cobertura de terapias contra o câncer segue as regras da ANS; entenda as diferenças entre os sistemas em como funcionam o SUS e os planos de saúde.
Câncer de pulmão no Brasil: os números
O câncer de pulmão é a principal causa de morte por câncer no país. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA):
| Indicador | Dado |
|---|---|
| Casos novos por ano (estimativa 2026-2028) | 35.380 |
| Mortes em 2024 | 32.465 |
| Casos ligados ao tabagismo | Cerca de 85% |
| Casos diagnosticados em fase avançada | Cerca de 84% |
| Sobrevida em 5 anos | Cerca de 5,2% |
O número de mortes por câncer de pulmão em 2024 foi maior que a soma das mortes por câncer de próstata (17.826) e de mama (20.849). Entre os homens, é o terceiro câncer mais frequente; entre as mulheres, o quarto, sem contar o câncer de pele não melanoma.
Sintomas, prevenção e rastreamento
A doença costuma ser silenciosa no início, e por isso a maior parte dos diagnósticos é tardia. Sinais que merecem avaliação médica, principalmente em fumantes e ex-fumantes:
- tosse persistente ou mudança no padrão de uma tosse antiga;
- escarro com sangue;
- dor no peito que piora ao tossir ou respirar fundo;
- rouquidão que dura semanas;
- falta de ar, cansaço, perda de peso e de apetite;
- pneumonias ou bronquites que se repetem.
Esses sintomas não são exclusivos do câncer e podem ter várias outras causas, mas não devem ser ignorados. A principal forma de prevenção é não fumar ou parar de fumar; o SUS oferece tratamento gratuito para quem quer largar o cigarro nas unidades de saúde. Fumo passivo e poluição também estão entre os fatores de risco.
Ao contrário do que acontece com o câncer de mama, que tem a mamografia, explicada em nosso guia do Outubro Rosa, ainda não existe programa nacional de rastreamento do câncer de pulmão no SUS. Em abril de 2026, o INCA iniciou no Rio de Janeiro um estudo para avaliar a viabilidade de usar a tomografia de baixa dose na rede pública, voltado a pessoas de 50 a 80 anos, fumantes ou ex-fumantes há até 15 anos, com histórico de pelo menos 20 maços-ano. Segundo o Jornal Brasileiro de Pneumologia, esse exame reduz a mortalidade por câncer de pulmão em 20%, ou em 38% quando combinado com o abandono do cigarro.
Perguntas frequentes
Quais são os remédios para câncer de pulmão que o SUS vai distribuir?
Brigatinibe e gefitinibe, que são terapias-alvo em comprimido, e durvalumabe, uma imunoterapia aplicada na veia.
Todo paciente com câncer de pulmão pode receber?
Não. O brigatinibe é para tumores com alteração ALK, o gefitinibe para mutação no gene EGFR e o durvalumabe para estágio III sem possibilidade de cirurgia que não avançou após quimiorradioterapia. A indicação é do oncologista.
Quando começa a distribuição?
A partir de outubro de 2026, de forma gradual e não simultânea em todo o país.
Quanto o paciente paga?
Nada. O tratamento é financiado integralmente pelo governo federal. Na rede privada, passa de R$ 600 mil por ano.
Como conseguir pelo SUS?
Pelo serviço de oncologia habilitado no SUS onde o paciente já é acompanhado, a partir da avaliação clínica e do exame molecular do tumor.
O SUS faz rastreamento de câncer de pulmão com tomografia?
Ainda não há programa nacional. O INCA conduz desde abril de 2026 um estudo no Rio de Janeiro com tomografia de baixa dose para pessoas com alto risco.
Este conteúdo é informativo e não substitui a avaliação médica. Fontes: Ministério da Saúde e Agência Gov; Conitec (Portarias SECTICS/MS nº 21/2024 e nº 28/2025); Jornal da USP; Instituto Nacional de Câncer (INCA); Agência Brasil; JCO Global Oncology.




